Lean Startup… é de comer?

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segunda-feira, 3 d março d 2014
Por Eduardo Russo, Coop10. Siga no Twitter

Capa do Lean StartupComecei a escrever um post que falava basicamente sobre alguns dos meus projetos pessoais… como foram criados… os problemas que tive… as soluções que adotei… os frameworks que usei… enfim, muitas coisas que tinham uma conexão para mim, mas que precisaria de um livro para fazerem sentido para o leitor.

Percebi que não fazia sentido escrever uma bíblia intitulada “Lean Startup, Laravel, Tubelivery, Faviconit e mais algumas coisas aleatórias” – esse era o título do post – e resolvi picotar em posts menores e mais focados.

Nesse primeiro falarei sobre Lean Startup (Startup Enxuta, em português), falando um pouco sobre minha experiência usando esta metodologia de criação de produtos e mercados.

Logo no primeiro parágrafo da Wikipedia já é possível entender o objetivo do Lean, porém compreender a filosofia por trás depende de um pouco mais. Colocá-lo em prática e vê-lo funcionando… mais ainda.

Lean startup é um conjunto de processos usados por empreendedores para desenvolver produtos e mercados, combinando Desenvolvimento ágil de software, desenvolvimento de clientela (Customer Development) e plataformas existentes de software (usualmente FOSS). O conceito foi introduzido por Eric Ries.

Pra que serve

Imagine que você acorda de manhã e pensa: “Carros voadores! É disso que o mundo precisa. Esse é o Futuro.”

Pega seu carro, vai para o trabalho, pede demissão e avisa que irá construir um carro voador, que é disso que o mundo precisa.

Vende seu carro, vende sua casa, cria uma apresentação sobre o futuro maravilhoso dos carros voadores. Leva essa apresentação para seus amigos ricos e alguns deles concordam que este é o futuro.

Em duas semanas, está com uma fábrica montada e o projeto do carro voador pronto. Em 2 anos de desenvolvimento, sem que ninguém saiba, tem o carro voador pronto.

Faz um grande anúncio no jornal falando “O carro voador chegou, compre o seu nas melhores lojas do ramo”.

Após seis meses, vai à falência… não vendeu nenhum dos 2 milhões de carros voadores que construiu. NENHUM!

Você fica desesperado e vai tentar vender os carros de porta em porta e ouve o seguinte das pessoas “Tenho medo de alturas”.

E assim, descobre que sua ideia maravilhosa conflitava com o medo de altura das pessoas e você levou três anos e alguns zilhões de reais para descobrir isso.

Basicamente o que o Lean fala (usando a experiência do autor como base) é que, se no primeiro dia tivesse construído um carro voador de papelão e tentasse vender esse carro para as pessoas, teria descobridor com muito menos dinheiro e em muito menos tempo que as pessoas tem medo de altura e que não valeria a pena investir seu precioso tempo e dinheiro em construir algo que ninguém quer.

Como usa

Existe um livro inteiro explicando como usa… mas vou resumir aqui usando minha experiência pessoal.

A metodologia se baseia em iterações do ciclo Contruir, Medir e Aprender.

Construir - Medir - Aprender

Tenha uma ideia, construa algo, meça o resultado, aprenda com eles, tenha novas ideias…

Primeira iteração

Gosto de assistir alguns canais de YouTube, de acompanhá-los no meu celular assim que saem novos episódios. Porém, não gosto de ter que entrar no YouTube toda hora pra ver se tem novidade e muito menos de ficar tentando assistir algo pelo nosso 3G maravilhoso.

Além disso, sou um consumidor assíduo  de Podcasts… então pesquisei por ferramentas que convertessem canais de YouTube em Podcasts… por azar, ou sorte, não existia nenhuma.

Resolvi então criar uma ferramenta bem simples que fizesse isso… para meu uso pessoal… não pensava em um produto.

Em algumas semanas criei o produto e estava feliz da vida assistindo vídeos do YouTube offline. Foi quando tive a ideia, quando pensei no meu carro voador.

“Ei, todo mundo quer assistir vídeos dos canais que gosta sem ter que gastar 3G!”

Como já tinha tido contato com o Lean Startup, resolvi aplicá-lo, construindo algo.

Criei uma página no Unbounce, uma plataforma para criar páginas de venda de fumaça.

Nessa página dizia, basicamente, “Crie Podcasts de canais de YouTube de graça. Coloque seu email e recebe acesso ao beta”.

Divulguei essa página em fóruns que discutiam o assunto. Medi e, em alguns dias, tinha algumas dezenas de emails.

Aprendi que mais alguém além de mim tinha interesse no meu carro voador!!!

Mais do que isso, percebi que tinha realmente um produto em mãos.

Segunda iteração

Resolvi converter aquele programa para um único usuário (eu) para múltiplos usuários. Construí as alterações necessárias e coloquei no ar.

Medi os resultados e aprendi que as pessoas realmente usariam o produto, mas, minha estrutura de dados em XML obviamente não funcionava para múltiplos usuários… foi um sucesso fracasso

Terceira iteração

Resolvi então fazer algo de verdade (foi quando conheci e usei o Laravel… papo para outro post).

Contruí uma ferramenta mais robusta, com usuário e senha, links aleatórios, gestão de canais etc. O Tubelivery.

 

Tubelivery - página de canais

Página dos canais do Tubelivery

Medi os resultados e foi sucesso absoluto! Mais de 20o usuários em menos de um mês com praticamente nenhuma divulgação… fui expulso do DreamHost por “abuso  dos recursos” – 2 TB de dados. Tive que correr pra Amazon Web Services (AWS)… enfim… o tipo de problema que queremos ter… muito acesso, muitos usuários…

Abusado!

Resumidamente, aprendi que o produto tinha apelo… que as pessoas o usariam e que possivelmente eu tinha um negócio em mãos.

Omiti um pedaço do email do pessoal do DreamHost que dizia que, além de tudo, eu feria os termos de uso do YouTube, que diz claramente que você não pode baixar vídeos para seu servidor, que você não pode pegar vídeos sem ser pelas APIs oficiais… mais pra frente falarei sobre isso…

Quarta iteração

Depois de toda a correria do DreamHost para a Amazon, rodei por mais um mês… mais de 200 usuários felizes, diversos canais inscritos… muita alegria!

Usuário feliz 1

Deu caca… mas o usuário gosta do produto mesmo assim :)

 

Usuário feliz 2

Gente querendo pagar pelo produto!

Foi confirmado que tinha um produto em mãos… bastava começar a desenvolver os planos pagos mas… veio a conta da Amazon no fim do mês…

Mais de U$100… mais de 4TB de dados no S3… Servidor batendo 100% de processamento praticamente o tempo todo…

Foi quando me dei conta que, para ser viável e escalável, eu teria que ter MUITOS usuários pagantes para cobrir o rombo que teria mensalmente com servidores… já que estava basicamente copiando o YouTube!

Para crescer, teria que investir em marketing…

Se investisse em marketing e realmente crescesse, a ponto de ficar conhecido, o Google ficaria sabendo da minha existência… e aí vem o lance dos termos de uso feridos…

No YouTube existe uma cláusula que diz que você só pode pegar seus vídeos através das APIs fornecidas e, obviamente, nenhuma API fornecida permite que você faça o download dos vídeos… eu estava usando um programinha  chamado youtube-dl que, via terminal, baixa vídeos do YouTube.

Outra cláusula do YouTube diz que você não pode manter vídeos do YouTube em seus servidores…

Enfim… entrei num dilema… fico pequeno e gasto centenas… milhares de dólares mensais pra ganhar dezenas de dólares… ou cresço e corro o risco de ficar famoso internacionalmente como o cara que tomou um processo do Google e perdeu feio?

Uma das grandes lições que aprendi como gerente de produto (cargo que exerço desde que me formei) é que é preciso perceber quando parar…

Foi então que anunciei para os usuários que o serviço seria descontinuado… dei uma alternativa em Adobe Air… que roda localmente… e fechei o acesso ao site.

Conclusões

A utilização do Lean Startup no processo de construção do Tubelivery foi realmente muito rico… apesar de eu não ter ficado rico com ele.

Ver que a cada iteração eu entendia mais sobre o produto, sobre o mercado e que, finalmente, percebi a grandeza do negócio e o quão inviável ele era rapidamente foi muito bom.

Foi triste acabar com o produto tão rapidamente, mas provavelmente estaria mais triste de estar pagando U$1.000 todo mês e estar brigando com o Google nos tribunais.

Então, a dica do dia é:

 

He-man te dá a dica

Se você acha que tem a ideia mais incrível do mundo… veja se o mundo concorda antes de gastar todo seu tempo e dinheiro nessa ideia! Até mais, amiguinhos!

Tenho algumas críticas em relação ao Lean Startup e, dependendo do seu tamanho e do seu mercado, nem sempre é possível aplicar a metodologia.

Pode ser que, só de mostrar pro mundo sua ideia, você perca totalmente o mercado para um concorrente mais ágil… principalmente se você for uma empresa de um homem só!

De tudo que o Eric Ries já fez, me parece que apenas o livro Lean Startup é um produto bem sucedido… o que me deixa em dúvida do quanto a metodologia é realmente infalível! Ele critica a forma como o Google lida com seus produtos… o que me parece estranho… considerando o quanto o Google já fez e o sucesso de seus produtos…

Um complemento interessante a tudo isso: Steve Jobs dizia que o consumidor não sabe o que quer… e, realmente, se você perguntar para o consumidor se ele quer algo, a resposta provavelmente será sim… o segredo do Lean é fazer com que o consumido COMPRE… não que ele diga que compraria!

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Eduardo Russo
Eduardo Russo

Formado em Engenharia de Computação pela Poli (2010) e em Design pela Belas Artes (2001), cofundador do Bit a Bit, fundador do Tubelivery e do Faviconit, cofundador da Fábrica de Aplicativos e coordenador de produto do Scup.

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