As chuvas de janeiro num cálculo de guardanapo

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segunda-feira, 31 d janeiro d 2011
Por Paulo Barreto

As chuvas recentes na região Sudeste são certamente espantosas pela intensidade da destruição e miséria que causam. De um ponto de vista físico, porém, não deveriam causar tanto espanto.

O índice pluviométrico em São Paulo (capital) pode chegar, nesta época do ano, a 14 cm num único dia. Assumamos um índice de 10 cm para uma tempestade prolongada como a do dia 23/01/2011. Consideremos que a área afetada tenha ao redor de 100–110 km², correspondente a nuvens nimbostratus com diâmetro 2R ~ 11–12 km (nuvens de até 15 km não são incomuns, e as notícias daquele dia de fato sugerem uma região afetada com pelo menos essa magnitude). Pode-se estimar uma base dessas nuvens ao redor de 3 km e uma espessura de 2 km , portanto com uma altura média h ~ 4 km. A massa de água aí contida, portanto, é de cerca de m = πR²ρ ~ 1010 kg, e uma energia potencial E = mgh ~ 4×10 14 J. Essa energia transforma-se principalmente em cinética durante a tempestade, originando a destruição. Ora, 1 quiloton (1 kt) equivale a cerca de 4×1012 J. Portanto, sem levar em conta dissipação devida ao atrito e outras causas, a energia liberada pelas chuvas que enfrentamos está na casa de 100 kt.

Mesmo se houver aqui um erro de uma ordem de grandeza, esse valor continua mais descritivo de um ataque nuclear que de fenômenos naturais comuns. Um cálculo simples assim revela a enormidade desses fenômenos, e poderia ter estimulado há muito tempo a adoção de medidas preventivas e uma melhor infraestrutura de pronto atendimento.

Paulo Barreto (professor – EPUSP/PCS)

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